O grupo da Capela Musical Pontifícia Sistina (CMPS), formado por adultos e crianças, fará apresentações gratuitas em São Paulo/SP e Campinas/SP, Curitiba/PR, Brasília/DF e Rio de Janeiro/RJ. É a primeira vez em 600 anos de história que o coro vai se apresentar na América Latina. No repertório, como antecipou o maestro brasileiro, monsenhor Marcos Pavan, músicas sacras com mais de 1400 anos, já interpretadas diante dos Pontífices durante as celebrações no Vaticano, além de uma obra em português.
Assim como foram intensos os últimos dias de junho no Vaticano, com compromissos ligados ao Consistório e à missa na Solenidade dos Santos Pedro e Paulo na Basílica de São Pedro, será também a primeira quinzena de julho, mas a quase 10 mil km de distância, no Brasil. O coro da Capela Musical Pontifícia Sistina (CMPS) partiu na quarta-feira (01/07) a São Paulo para uma turnê inédita de 15 dias que, além da capital paulistana, vai cumprir agenda em Campinas/SP, Curitiba/PR, Brasília/DF e Rio de Janeiro/RJ. É a primeira vez em 600 anos de história que o mais antigo coro do mundo em atividade vai se apresentar na América Latina, já que na bagagem leva consigo viagens realizadas por diversos países, como Japão, Coreia do Sul, Hungria, Alemanha, Rússia, Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos e Canadá.
Turnê histórica tem sotaque brasileiro
Com grande influência na história da música, o coro é responsável pela música das principais celebrações no Vaticano e tem na regência um maestro brasileiro: monsenhor Marcos Pavan, o primeiro não italiano a ocupar a função na história. Natural de São Paulo, o diretor realizou estudos musicais na capital paulistana, especializando-se em técnica vocal e canto gregoriano, e obteve o Fellowship Diploma em Regência Coral pelo National College of Music and Arts de Londres. Após carreira no Brasil como cantor lírico e regente, transferiu-se para a Itália em 1991. Em 1998, foi nomeado maestro dos Pueri Cantores da Capela Musical Pontifícia, participando das gravações do coro para a Deutsche Grammophon e Paulus. Em 2020, o Papa Francisco o nomeou maestro-diretor do Coro do Papa em pleno dia de festa litúrgica de Santa Cecílica, em 22 de novembro.
Outro brasileiro presente na turnê é Alessio D’Aniello, natural de Araxá/MG, adotado ainda bebê por uma família italiana através das Irmãs Discípulas de Jesus Eucarístico, há mais de 10 anos uma das vozes mais graves da Capela Musical Pontifícia Sistina. O cantor baixo faz parte do grupo dos 23 cantores adultos que viajam junto aos 29 Pueri Cantores - as vozes brancas que acompanham a liturgia, ou seja, dos "Meninos Cantores" -, 6 acompanhantes, organista e maestro. Para Alessio, mais uma ocasião para reencontrar os familiares biológicos, desta vez, mostrando o seu talento também ao grande público brasileiro: "o nosso desejo é proporcionar às pessoas a emoção das celebrações com o Papa. Como se levássemos um pouco do Vaticano até elas", comentou o cantor.
Os 200 anos de relações entre Brasil e Santa Sé
A viagem, acrescenta ainda o mons. Pavan, é uma oportunidade para levar, a todos os fiéis do Brasil, "a proximidade e a comunhão com o Papa e com toda a Igreja de Roma". O maestro enaltece que a turnê no Brasil ainda celebra os 200 anos das relações diplomáticas entre o Brasil e a Santa Sé. Além da participação em celebrações eucarísticas, as apresentações em São Paulo e Brasília financiadas via Lei Rouanet, e os concertos extras em Campinas, Curitiba e Rio de Janeiro terão acesso gratuito, fazendo parte da missão de evangelização do Coro do Papa que além de preservar, transmite o patrimônio da música sacra, colocando-o a serviço tanto da liturgia papal como de toda a Igreja, como preconizado pelo Concílio Vaticano II (Const.Sacrosanctum Concilium, n. 114):
A força da Igreja católica no Brasil
O programa amplo que será apresentado no Brasil foi preparado para mostrar as várias épocas de tradição musical da Capela Musical Pontifícia, comentou monsenhor Pavan, porque "vai abraçar um pouco as músicas desses 1400 anos de história da música sacra". Em especial, no próximo domingo (05/07), no concerto ao final da missa na Catedral da Sé, em São Paulo, o Coro do Papa irá interpretar em português uma obra do Pe. José Weber, um grande expoente da música litúrgica brasileira da atualidade, que "dedicou a sua vida à causa da música litúrgica. Será um feito histórico", comenta entusiasmado Delphim Rezende Porto, diretor de música da Catedral da Sé e regente da São Paulo Schola Cantorum que conta com a colaboração do próprio compositor Padre Weber. Delphim compartilha a importância de receber no Brasil o coro que é responsável em animar as celebrações do Papa no Vaticano.
As origens do Coro do Papa
As origens da Capela Musical Pontifícia Sistina remontam aos séculos VI e VII, numa época em que a Europa ainda não tinha orquestras, óperas nem conservatórios. Entretanto, o marco que projetou o conjunto ao centro da vida musical europeia ocorreu em 1471, quando o Papa Sisto IV reorganizou e ampliou a instituição, que desde então carrega seu nome. A partir desse momento, tornou-se o principal polo de atração e formação musical do continente. Por seus quadros passaram alguns dos maiores nomes da história da composição: Guillaume Dufay (c. 1397–1474), Josquin des Prez (c. 1450–1521) — considerado por muitos o maior compositor antes de Bach —, Giovanni Pierluigi da Palestrina (c. 1525–1594), Cristóbal de Morales (c. 1500–1553), Luca Marenzio (c. 1553–1599), Costanzo Festa (c. 1485–1545), Jacob Arcadelt (c. 1505–1568) e Gregorio Allegri (1582–1652), entre dezenas de outros. Vários deles compuseram obras exclusivamente para esse coro — peças calibradas para a acústica única da Capela Sistina, que se tornaram a referência técnica e estética da polifonia coral para toda a Europa. Quando os compositores passaram a escrever para conjuntos vocais em qualquer parte do mundo, tinham em mente o modelo da Sistina.
O Miserere de Gregorio Allegri (1638), obra criada especificamente para a Capela Sistina e tida como segredo de ofício, foi transcrita pelo jovem Wolfgang Amadeus Mozart, então com 14 anos, em 1770, enquanto assistia a uma execução da obra na Semana Santa. Hoje é uma das peças de corais mais gravadas e executadas do mundo.